terça-feira, 7 de maio de 2013

Superdotados: Brasil ainda desperdiça talentos


O Brasil começou a investir tarde nas crianças superdotadas. Só a partir de 2005 foi iniciada uma estratégia nacional para capacitar professores da rede pública a reconhecer e trabalhar as potencialidades desses meninos e meninas. Educadores que lidam com esse público há mais tempo consideram que o atraso resultou no desperdício de milhares de talentos que poderiam contribuir ao desenvolvimento do País.


Uma das primeiras dificuldades na educação dessas crianças, também chamadas de “portadores de altas habilidades”, consiste em identificá-las. As características que as diferem das demais vão além da capacidade intelectual acima da média e do alto desempenho em raciocínio lógico. Segundo o Conselho Brasileiro para Superdotação – ONG que atua na orientação de professores, pais e alunos de superdotados – devem ser levadas em conta habilidades psicomotoras, artísticas, traços de criatividade e liderança. Com base nesse modelo, Pelé no futebol, Chico Buarque, na música, e Ana Botafogo, na dança, poderiam ser considerados superdotados, por exemplo.
Os primeiros sinais de superdotação começam a surgir a partir dos seis anos. Para identificá-los, além do teste de QI, a observação é fundamental. O professor deve estar apto a perceber a criança que apresenta não só nos estudos, mas também em outros ambientes – como o esportivo ou artístico, para ficarmos nos exemplos já mencionados – uma potencialidade a ser trabalhada.
É justamente nesse ponto que a rede de ensino, seja pública ou particular, não está preparada, segundo os especialistas. “A formação do professor é deficiente. Ele não é treinado para olhar e mapear os interesses, estilos de aprendizagem e habilidades do aluno”, afirma a pesquisadora Jane Chagas, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). A especialista na educação de superdotados aponta que o modelo de avaliação usado pelos docentes está muito preso às disciplinas do currículo escolar. Se o estudante não corresponde ao que é exigido neste padrão, é taxado de incapaz, mesmo que apresente alto potencial em outro campo.
A doutora em Educação Cristina Maria Delou, que trabalha com portadores de altas habilidades na Universidade Federal Fluminense (UFF), tem uma postura mais crítica com relação ao assunto. Segundo ela, mesmo quando o aluno se destaca nas disciplinas do currículo escolar, na maioria dos casos não recebe atenção diferenciada. “Se a criança sabe ler e escrever quando a turma inteira não sabe, ela é desqualificada. O professor manda ela calar a boca porque está atrapalhando o resto da turma”, alfineta.

Investimento tardio

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, prevê disciplinas específicas sobre superdotados nos cursos de formação de professores. Mas, segundo especialistas, o conteúdo não chega a ser ministrado porque a prioridade é para o ensino de crianças com deficiências. Os primeiros investimentos nesse tipo de capacitação pelo Governo Federal começaram a ocorrer há dois anos. Em 2005 foram criados, em parceria com a Unesco e os governos estaduais, os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (Naah/S) – um para cada unidade da Federação. Os centros capacitam os professores da rede pública e também atendem os superdotados.
O MEC já realizou, desde maio daquele ano, três cursos nacionais de formação dos profissionais dos Naah/S. Também lançou material didático, composto por quatro volumes em uma tiragem de 5 mil exemplares. Todas essas ações contabilizaram um investimento de R$ 2 milhões, em pouco mais de dois anos.

Cristina Maria Delou, da Faculdade de Educação da UFF, vê com bons olhos o esforço, mas avalia que a atenção ao superdotado no Brasil está apenas começando. “É um bom investimento, mas ainda é pouco. A própria tiragem da primeira edição do material que foi produzido é baixa. O Brasil tem mais de cinco mil municípios e foram feitas cinco mil coleções. Não há nem uma por município”, afirma.
A pedagoga Renata Maia, assessora técnica da Secretaria de Educação Especial do MEC, garante a expansão da iniciativa. “Prevemos um Naah/S em cada município-pólo. Vamos fazer a segunda edição do material didático e lançar outro, voltado ao trabalho do professor em sala de aula”, afirma. Município-pólo é a nomenclatura atribuída pelo Ministério às cidades com o maior número de alunos com necessidades especiais – são 147 em todo o País. Apesar dos planos, o órgão ainda não tem prazos para o cumprimento dessas metas e nem informações sobre o orçamento disponível.

Potencial desconhecido

O Censo Escolar 2006, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), aponta 2.553 meninos e meninas com essas características no Brasil. Mas o número pode estar muito aquém da realidade, pois muitos colégios deixam de informar quantos alunos são atendidos como superdotados. Segundo a Secretaria de Educação do Distrito Federal, somente na capital brasileira existem 1.180 jovens. O Censo Escolar registra apenas 215 meninos e meninas com altas habilidades no DF.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, de maneira geral, a proporção de superdotados varia entre 1% a 3% da população de um País. No Brasil, como existem 49.581.066 crianças e adolescentes matriculados desde a Educação Infantil até o Ensino Médio (Censo Escolar 2006), aplicando-se o cálculo da OMS, a estimativa é que possa existir até 1.487.431 jovens de 6 a 17 anos com perfil de superdotação.

A educação dos superdotados é feita por meio das chamadas salas de recursos, freqüentadas no turno contrário ao do ensino regular. A falta de um programa federal específico para a criação desses espaços faz com que a instalação dos mesmos fique a critério das direções das escolas municipais. Segundo os especialistas, como os colégios geralmente priorizam o trabalho de alfabetização e o ensino de estudantes com deficiências, as crianças com altas habilidades acabam sendo atendidas apenas nas salas de aula normais, sem nenhuma atenção especial. A exceção ocorre nos grandes centros urbanos.

Investimento deve começar cedo

Uma criança superdotada sem educação adequada não perde suas habilidades. “Sempre que houver condições e espaços favoráveis ela vai mostrar suas capacidades”, explica Carly Cruz, pedagoga do Naah/S de Vitória (ES) e membro da Associação Brasileira para Altas Habilidades. Mas, dependendo de seu contexto socioeconômico, ela pode nunca ter a chance de se destacar. Com a chegada da adolescência vem a necessidade de entrar no mercado de trabalho para ajudar a família e aquele talento é deixado de lado. Por esses motivos os pesquisadores são unânimes: é preciso investir em profissionais que identifiquem e trabalhem suas potencialidades desde cedo, ou vamos continuar desperdiçando talentos.

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